Filme-ensaio de Alek Lean é selecionado para o 33º Festival de Cinema de Vitória
- 20 de jul.
- 3 min de leitura
A narrativa sobre fotografias de homens negros LGBTQIA+ é um ensaio sobre memória, afeto e resistência.
O curta-metragem experimental "Faça Uma Pose", dirigido pelo cineasta e artista visual Alek Lean, foi selecionado para a programação do 33º Festival de Cinema de Vitória, um dos mais tradicionais e relevantes eventos dedicados ao audiovisual brasileiro. A seleção marca mais um importante reconhecimento à trajetória do realizador, que vem se destacando pela produção de obras que dialogam com memória, identidade, diversidade e experimentação estética.
Em "Faça Uma Pose", Lean constrói um delicado filme-ensaio a partir de fotografias de pessoas anônimas do mesmo sexo, com especial atenção às imagens de homens negros registradas entre as décadas de 1940 e 1970. O filme observa gestos, olhares e demonstrações de afeto capturados em um período historicamente marcado pela segregação racial, pela criminalização e marginalização das sexualidades dissidentes e pela quase ausência de representações positivas de corpos negros em relações afetivas.
Ao comentar essas fotografias, o cineasta propõe uma reflexão sensível sobre memórias silenciadas e histórias que resistiram ao apagamento. O resultado é um trabalho que transforma imagens estáticas em testemunhos poéticos de afeto, existência e resistência.
A principal referência estética da obra é a cineasta francesa Agnès Varda, uma das figuras fundamentais da Nouvelle Vague. Antes de se consagrar no cinema, Varda iniciou sua trajetória como fotógrafa, e o diálogo entre fotografia e audiovisual tornou-se uma marca central de sua filmografia. Obras como o curta Salut les Cubains! ("Saudações, Cubanos!", 1963), construído a partir de centenas de fotografias feitas durante uma viagem a Cuba, e os experimentos ensaísticos realizados pela diretora influenciaram diretamente a concepção de "Faça Uma Pose".
A relação de Alek Lean com a imagens estáticas já havia sido explorada anteriormente em seu premiado curta experimental Por Trás das Tintas (2019), obra na qual o diretor dá voz à mulher retratada ao fundo de uma pintura histórica, imaginando sua versão dos acontecimentos e questionando os limites entre arte, memória e narrativa. Em "Faça Uma Pose", o realizador retorna a esse exercício de escuta simbólica, agora direcionado aos pequenos detalhes de afeto escondidos em fotografias de arquivo. A seleção para o Festival de Cinema de Vitória também acontece em um momento de intensa produção artística do cineasta.
Recentemente, Lean lançou o curta experimental LGBTQ+Cuba (2025) durante o Festival Iberoamericano de Cinema CURTA-SE. No filme, imagens registradas pelo diretor durante sua viagem a Havana são combinadas a fotografias e registros históricos em uma narrativa sobre a evolução das lutas LGBTQIA+ em Cuba, reforçando seu interesse por formatos híbridos e linguagens documentais não convencionais.
Alek Lean iniciou sua trajetória no audiovisual por meio da experimentação e da produção independente. Após anos transitando entre documentários, ficções e projetos de impacto social, o diretor vem retomando com intensidade os métodos experimentais que marcaram o início de sua carreira. "Faça Uma Pose" surge como mais um capítulo desse percurso artístico, reafirmando o potencial do cinema-ensaio como ferramenta de resgate histórico, reflexão política e construção de novas formas de olhar para o passado. Desta vez, a obra foi produzida em sala de aula no Centro de Referência em Cinema e Audiovisual.
A presença do filme no Festival de Cinema de Vitória reforça a relevância da obra dentro da produção contemporânea brasileira e amplia a circulação de um trabalho que transforma fotografias esquecidas em poderosos atos de memória, afeto e resistência.
Serviço:
Festival de Cinema de Vitória
Dia 21/07/2026 às 14h
SESC Glória - 3º andar
Av. Jerônimo Monteiro, 428
Centro - Vitória - ES
Entrada Franca
























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